Os políticos culpam a crise internacional, dizendo que tudo fazem para tirar o nosso país da bancarrota. O povo culpa os políticos pela sua incapacidade em resolver os problemas do país, e pelo esbanjamento dos parcos recursos em mordomias e em projectos dos projectos megalómanos que nunca sairão das gavetas. Ah, e a Justiça. Ai a Justiça.
Eu? Eu culpo a derrota dos valores morais. Sim. Não sabias? Os valores morais ainda existem, podes visitá-los num museu perto de ti! Há muito que não ouves falar de valores morais? Eu acredito. Hoje em dia já ninguém visita os museus!
Os valores morais costumavam ser os alicerces das sociedades, de qualquer sociedade, seja ela uma nação, uma empresa ou a comissão de festas local.
Naquela altura, quem respeitava os valores morais era recompensado com a medalha da honra, e de cabeça erguida passeava-se orgulhosamente pela sociedade.
Hoje vi um desses honoráveis homens. À espreita, sob a lapela do casaco, ainda consegui avistar a sua medalha da honra. A sociedade vergou aquele homem, que timidamente continua a carregar a sua medalha. Há quem lhe chame tradição, eu digo: perseverança.
Hoje é vergonhoso carregar esse estandarte.
Hoje é muito mais fashion dizer “eu não consigo viver de acordo com as regras da sociedade… os meus valores são diferentes dos valores dos meus pais.” e logo de seguida rematam “…mas reconheço que existem limites mínimos… não faço mal a ninguém.”
A isto eu chamo de psicologia de algibeira, mais comummente conhecido como egoísmo e falta de ética. Só porque não recebi educação fundada nos valores morais – ou porque não quis receber – não posso seguir a minha vida unicamente de acordo com aquilo que me faz sentir bem, ou agir unicamente de forma a não ser criticado/rejeitado por um determinado grupo social.
Não. Há que progredir. Eu acredito nos valores morais. E digo mais, não é só a escola que deve ensinar aos meus filhos aquilo que é eticamente correcto. Eu acredito que é na minha casa que devo semear e cultivar os valores morais.
Pelo que assistimos nos telejornais e na imprensa em geral, e aos olhos dos mais distraídos, pode parecer que o problema da educação nas escolas se agravou nas últimas semanas. Mas, se reflectirmos com mais atenção, facilmente percebemos que um problema destes não surge de um dia para o outro. Não. Eu garanto-vos que são necessários muitos anos de desabituação para que isto esteja a acontecer. Talvez seja necessário recuarmos cerca de 36 anos na história deste país para percebermos as diferenças. Se até então nada era permitido, depois tudo é permitido e nada pode ser reprimido. Não me acusem de ser fascista, isso seria tremendamente injusto, porque… eu faço parte da primeira “geração rasca”, lembram-se? Pois é, depois dessa têm surgido outras, até parece que é cíclico! Ou hereditário, quem sabe?
Desde sempre houve professores estúpidos, psiquicamente desequilibrados e frustrados, mas a sua percentagem era tão ínfima que ninguém se importava. Agora, de um momento para o outro, parece que para o Governo todos os professores são estúpidos, para a população todos os professores estão “tétés”, e para os próprios a fase de frustração foi ultrapassada pela angústia e resignação.
Os nossos filhos estão, literalmente, entregues a si próprios.
O que podemos fazer para combater a corrupção, a crise e o actual estado da nação?
Vamos minar a sociedade com os anciãos valores morais.
Aqueles que obrigam os “outros” a esconder as suas medalhas de honra, são os primeiros a criticar e repudiar as acções menos éticas dos nossos governantes. Mas esquecem-se que ambos estão dentro do mesmo saco que constantemente descrimina e desvaloriza os “outros”.
As acções anti-éticas dos nossos governantes são justificadas, por aqueles, com base nos mesmos preceitos da maioria da nossa sociedade actual. “… que se lixe a moralidade, eu tenho é que tomar as decisões que o país necessita com base nos meus próprios ideais (leia-se: conforto e poder).
Por sua vez, o comum cidadão que decide que este ano não vai declarar a totalidade dos seus rendimentos ao fisco, também o faz baseado na mesma justificação “… que se lixe a moralidade, eu tenho é de tomar as decisões que a minha família necessita com base nos meus próprios ideais (leia-se: conforto e… menos poder).
Porreiro pá! Ambas as partes partilham dos mesmos ideais mas combatem-se mutuamente, desgastando a sociedade e criando barreiras cada vez mais intransponíveis entre o povo e a sua sociedade.
Ora, se ambos partilham dos mesmos ideias mas não se complementam, estamos perante uma situação de derrota. Talvez aquilo que esteja errado aqui seja a partilha de ideais. Devemos então partir para uma situação de não partilha de ideais com os nossos governantes. Ou seja, cada um por si. Hã!? Não? Não funciona? Cada um por si não é uma boa ideia? Então? Huumm… achas? Achas que devemos continuar a partilhar ideais, mas mudando de ideais? Héhé, e tu achas que os nossos governantes vão cair nessa? Está bem, essa também era a minha ideia inicial “vamos minar a sociedade com os anciãos valores morais”.
Todos nós sabemos que não é fácil mudar de hábitos de um dia para o outro, são necessários anos de prática para podermos esquecer velhos hábitos e adquirir outros. Aquilo que teoricamente parece ser fácil de conseguir pode tornar-se num pesadelo na realidade.
Vamos tomar como exemplo o hábito de fumar. A maioria dos fumadores não consegue largar o vicio durante uma vida inteira. No entanto, existem outros que de um dia para o outro deixam de fumar. No caso dos últimos, e de uma forma geral, está associado um acontecimento nefasto para a saúde que terá pregado um grande susto ao viciado, algo que marca profundamente no psíquico da pessoa em questão. Esse susto é a ignição que leva à combustão de sentimentos que levam o Homem a deixar de fumar.
Voltando ao nosso vicio: a greve dos valores morais. Só será possível reverter esta situação quando ocorrerem uma de duas situações: uma revolta ou a aceitação de que algo está mal e é preciso agir.
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